Escritores ganham maior visibilidade com o prêmio

Escritores ganham maior visibilidade com o prêmio
Contratos com editoras maiores, participação em eventos literários e até maior dedicação à carreira são alguns dos frutos que os vencedores estreantes das edições anteriores colhem até hoje.
Mesmo “veteranos” reconhecem importância do prêmio na realização de novos projetos

Por Gisele Turteltaub

No Brasil, quem aposta na literatura como meio de vida sabe que tem um árduo caminho pela frente, mas nem por isso desiste da realização desse sonho. Prêmios literários ajudam a divulgar obras e provocar o interesse de leitores, mas são poucos que dão essa oportunidade de visibilidade para estreantes. Um dos poucos a fazer isso – e também com a maior visibilidade – é o Prêmio São Paulo de Literatura, que desde sua primeira edição tem uma categoria específica para romancistas de primeira viagem. A partir de 2013, a categoria foi subdividida para contemplar dois estreantes por edição: um com mais de 40 anos e outro com menos de 40 anos.

Chegando à nona edição em 2016, o Prêmio São Paulo de Literatura, iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, oferece premiação em dinheiro a autores veteranos e iniciantes (premiações de R$ 200 mil para o Melhor Romance do Ano e de R$ 100 mil para dois estreantes), e traz em seu histórico escritores e editoras independentes que alcançaram notoriedade após figurarem entre seus finalistas e vencedores. Os vencedores foram anunciados em cerimônia no dia 10 de outubro (segunda-feira), na Biblioteca Parque Villa-Lobos, zona oeste de São Paulo.

Confira a história de escritores já contemplados em edições anteriores e impacto do Prêmio para editoras independentes.

 

Estevão Azevedo: aproximação com o público

O escritor e editor potiguar tentou o reconhecimento do júri do Prêmio São Paulo em 2009, com Nunca o nome do menino (Editora Terceiro Nome), na categoria estreante, mas não foi contemplado. Já Tempo de espalhar pedras (Cosac Naify) foi considerado o melhor romance publicado no país em 2014 e desbancou nomes mais conhecidos do grande público, como Chico Buarque, Cristovão Tezza e Silviano Santiago. “No momento de maior visibilidade do meu livro fiquei sem editora. Graças ao Prêmio, rapidamente pude fazer um novo contrato com a Editora Record, que republicou tanto o Tempo de espalhar pedras quanto o Nunca o nome do menino ”, comenta Azevedo. Segundo o escritor, o Prêmio foi essencial para aproximá-lo de seu público: “Escrever é um ato solitário, raramente temos retorno e contato com quem lê nossos livros. Após o anúncio de vencedor, muitos leitores entraram em contato comigo pelas redes sociais e fui convidado para participar de diversos eventos. É muito bom estar diante do público e conversar sobre a obra”, afirma.

Jacques Fux: sonho que virou realidade

Em 2010, o mineiro Jacques Fux participou de um bate-papo com os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura. “Sempre vislumbrei uma carreira literária e gostei tanto do contato com os escritores que comecei a imaginar como seria estar ali no futuro”, disse o escritor. Em 2013, foi a vez de Fux participar do bate-papo como finalista na categoria “Autor Estreante -40” e, posteriormente, ser eleito vencedor com o livro Antiterapias (Editora Scriptum). “Foi a realização de um sonho vencer o Prêmio São Paulo de Literatura, pois eu já sabia que este é o único que dá visibilidade aos estreantes”, comemora o autor, que frequentemente participa de eventos literários e hoje concilia a carreira acadêmica com a de escritor. Fux lançou pela Editora Rocco, em 2015 Brochadas, sendo que seu terceiro livro de ficção será publicado pela José Olympio, do Grupo Editorial Record. “Acredito que realmente há um comprometimento por parte do júri em buscar os melhores da literatura”, opina.

Paula Fábrio: portas abertas e dedicação à carreira

Com o romance Desnorteio (Editora Patuá), Paula Fábrio conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria “Autor Estreante +40”. Com Um dia toparei comigo (Editora Foz), a paulista foi finalista em 2016 na categoria “Melhor Romance do Ano”. “O Prêmio São Paulo de Literatura abriu muitas portas para mim. Quando lancei meu primeiro romance, não consegui muita exposição nem resenhas críticas. Após a premiação, o livro conseguiu um bom espaço no mercado e passei a participar de eventos literários. Se hoje posso me dedicar à literatura é porque o Prêmio me proporcionou justamente isso: uma carreira de escritora que representa 50% da minha vida profissional”, comenta Fábrio.

Raimundo Carrero: Cultura além dos livros

Em 2010, o pernambucano Raimundo Carrero foi premiado com o livro Minha alma é irmã de Deus (Editora Record), na categoria “Melhor Romance do Ano”. Junto com o reconhecimento e o prêmio de R$ 200 mil, veio a possibilidade de concretizar um sonho antigo: a criação do Centro Cultural Raimundo Carrero, que foi inaugurado em setembro e funciona no bairro do Espinheiro, no Recife. Ali serão realizadas atividades como debates, simpósios, exibição de filmes e oficinas de criação literária ministradas pelo próprio Carrero, reconhecido tutor de novos escritores. Nesta edição do Prêmio, o pernambucano disputou novamente o título de “Melhor Romance do Ano” com O senhor agora vai mudar de corpo (Editora Record). “Só foi possível construir o centro por causa do Prêmio São Paulo de Literatura”, revela Carrero. 


Editoras independentes atraem novos escritores

Para as editoras independentes, ter uma obra entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura também traz bons frutos. Eduardo Lacerda, editor da Patuá, teve bons momentos em 2013, com a vitória de Desnorteio, de Paula Fábrio, e em 2015, após Nossa Teresa – Vida e morte de uma santa suicida, de Micheliny Verunschk, ser reconhecido como melhor livro na categoria “Estreantes +40”. “Para nós foi uma surpresa quando o livro de Paula foi premiado. Atraímos muitos novos escritores, pois eles viram que, apesar de nossa editora ser pequena, nosso livro tem qualidade. Em 2015, o feito se repetiu e passamos a receber uma quantidade imensa de originais – cerca de 200 por mês”, explica Lacerda.

Com Marcelo Maluf (A imensidão íntima dos carneiros) como vencedor na categoria “Autor Estreante +40”  e Santana Filho (A casa das marionetes) como finalista de “Melhor Romance do Ano” em 2016, a Editora Reformatório também percebe mudanças em sua rotina com as indicações ao Prêmio São Paulo de Literatura. “Editoras pequenas chegam com menos frequência às grandes livrarias. No entanto, desde o anúncio dos finalistas, percebemos que há um aumento na demanda pelos nossos livros nesses estabelecimentos. Estamos atingindo um público que não conhecia a Reformatório, e isso é muito bom”, afirma Marcelo Nocelli, sócio-editor da empresa.

 

Compartilhar:

Talvez você também goste de …