Homenagem a Elvira Vigna

Homenagem a Elvira Vigna
Crédito: José Gaspar

Durante a solenidade dos 10 anos do Prêmio São Paulo de Literatura, foi aberto um espaço especial para dar voz aos que escrevem. A escritora Paula Fábrio, vencedora do prêmio de Melhor Livro do Ano 2013 – Autor Estreante fez uma linda homenagem a autora Elvira Vigna, que faleceu em julho de 2017 e deixou muita saudade.

Confira o depoimento —>

Eu gostaria de agradecer o convite para participar deste grande momento: dez anos do Prêmio São Paulo de Literatura.

Não pretendo inventariar o percurso do prêmio de modo solene, expositivo ou crítico. Como escritora, pensei que o melhor a fazer seria contar uma história, um episódio, um pequeno recorte do ano de 2013.

O mês era outubro.

Eu estava a estender roupas no varal de casa, um tanto desiludida, não pelo fato de estender roupas, mas porque meu primeiro romance, Desnorteio, havia passado despercebido pelos grandes jornais. Aliás, nenhuma novidade para um livro de estreia.

Foi quando ouvi um toque de mensagem no celular.

Àquela hora da tarde, enquanto minha cachorra abanava o rabo pedindo um biscoito no meio da lavanderia, acontecia a divulgação dos finalistas do Prêmio São Paulo em uma biblioteca pública, e eu, covarde, preferi terminar de estender as roupas a olhar a mensagem. Preferi entregar uma guloseima e receber uma lambida.

Mas a mensagem reclamava meu atraso. Peguei o celular. Uma amiga que esteve presente ao evento na biblioteca escreveu: eu não sou finalista, mas você é.

Liguei o computador: solicitações de amizade e um convite para os debates do prêmio. Foi assim que teve início minha vida de viajante.

No avião rumo a Presidente Prudente, me ajeitei ao lado de uma senhora tímida e tão atemorizada quanto eu com relação a novas amizades: seu nome, Elvira Vigna.

Minha primeira viagem literária seria com Elvira, também finalista do prêmio, mas na categoria não-estreante, óbvio. Ela me pareceu uma figura brava, difícil e dona de um dos maiores intelectos que já conheci. No entanto, Elvira sabia deixar brechas. E eu aproveitei uma dessas brechas.

O fato é que pedi um autógrafo e lhe ofereci um exemplar do meu livro.

Em seguida, desembarcamos, e eu comecei o ritual que me acompanha até hoje, visitei a praça central da cidade, o comércio, comi num quilo. Anotei. Depois, conforme a experiência me ensinou, chega a hora do debate, e claro: outra refeição, o vazio do quarto, o som de uma estrada que nunca volta.

Na manhã seguinte, no café do hotel, Elvira veio se sentar comigo. Ainda séria.

Li seu livro esta noite.

Parei de mastigar. Esbocei um sorriso a meio caminho. E lá ele ficou. Até que o semblante de Elvira se alterou. Agora havia uma menina travessa diante de mim.

O livro é bom. Vai ganhar o prêmio.

Ela estava certa, ganhei o prêmio. Assim como estava certa também que o meu segundo livro, Um dia toparei comigo, tinha chances de ser finalista. Elvira que me deu muitos outros conselhos, conselhos de mãe, como nunca deixar de levar chocolates em uma viagem.

Enfim, Elvira, hoje eu queria ter escrito uma ária, queria ter inventado um gesto simples e perfeito e totalmente novo para honrar a herança que você nos deixou. Ou mesmo um verso dodecassílabo, como o título de seu mais novo livro, artifício criativo que você me contou quase em segredo, com o riso cheio de poder de quem faz uma traquinagem. Mas me contento em sair desta festa, tomar um de seus romances da estante, ainda esta noite, e iniciar uma grande leitura.

Obrigada, Elvira, que esta noite seja em sua honra e de todas as outras mulheres vencedoras do prêmio. Obrigada, Prêmio São Paulo de Literatura.

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